Ageu Heringer Lisboa

Jesus é indubitavelmente a figura central da história da humanidade. Palestino de nascimento, filho de Davi, filho de Abraão,…filho de Jacó que gerou José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo (Mt.1.1,16). Desde um pequeno vilarejo, num canto remoto da Palestina, periferia do Império Romano, viveu aproximadamente trinta e três anos até sua crucificação. Sua influência espiritual e civilizatória alcançou todos os continentes e continua  impactando e renovando culturas. 

Neste breve estudo procurei resgatar e entender os registros corânicos sobre os personagens e circunstâncias que culminaram no nascimento de Jesus. E que lugar ocupa no livro sagrado dos muçulmanos, O Alcorão (ou Corão). Do árabe al-qurān, «a Leitura» https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/em

É necessário frisar a anterioridade e influência dos textos do Antigo e do Novo Testamento em relação às primeiras edições do Alcorão. Este compõe-se de 140 suratas ou capítulos agrupados em 30 livros. E cada livro compõe-se de versos. A primeira edição foi grafada por volta do ano 632. d.C.  (https://oglobo.globo.com/brasil/historia/alcorao-mais-antigo-do-mundo-encontrado-na-universidade-de-birmingham-1-16883465).

O leitor acostumado com textos bíblicos encontrará pontos de contato com o texto corânico como também estranhará claras diferenças e contradições de natureza histórica, doutrinária e teológica entre eles. O Corão ou Alcorão contém aproximadamente o mesmo volume do Novo Testamento. Importa salientar a origem comum e conflitiva das três grandes religiões que se espalharam desde o oriente médio para o ocidente e o oriente, para o norte e sul do globo. Os três registros sucessivos – A Bíblia hebraica, ou Antigo Testamento para os cristãos, O Novo Testamento e o Alcorão constituem o rico acervo simbólico, espiritual e histórico que sustenta a identidade de metade da população mundial, a milhares de anos. Só por este fato merecem ser conhecidos.

Não temos nenhum propósito apologético mas o de reduzir o abismo do desconhecimento sobre o diferente. Desconhecimento que nutre preconceitos e hostilidades que geram mortes. Bom lembrar o quanto nossas culturas e línguas estão entrelaçadas.

Li o Alcorão a uns vinte anos. O primeiro exemplar eu ganhei de um xeique paulistano, ex- pastor da Assembléia de Deus. Na tradução de  Mansour Chalita, Prefácio – Austregésilo de Athayde . Editora : Associação Cultural Internacional Gibran : Rio de Janeiro , s/d 

O segundo exemplar ganhei na Mesquita de Barão Geraldo, Campinas. Trata-se do  Alcorão Sagrado – Os significados dos versículos do Alcorão Sagrado. Tradução: Samir El Hayek. Introdução: Dr. Abdalla Abdel Chakur,  diretor do Centro Islâmico do Brasil e Coordenador dos assuntos Islâmicos  da América Latina. São Paulo: 1394 H. 1974 d.C.

E para conferir  visitei a edição on-linehttps://www.arresala.org.br/alcorao-sagrado/19-2

Nos deteremos, a seguir, sobre os fatos envolvidos no nascimento de Jesus segundo o ditado por Maomé.

Zacarias – Introdução 

Abrindo a 19a surata – “Máriam” (Maria), temos a mensagem sobre Zacarias –  relata a misericórdia de Senhor para o Seu servo Zacarias que lhe suplicava por um filho, dizendo estar com ossos debilitados, cabelos embranquecidos e que  temia pela sorte de sua esposa após sua more por ela ser estéril (Tradução M.Chalitta). Desejava que este filho seja uma pessoa que agradasse a Allah. Zacarias recebe a promessa do nascimento de uma criança cujo nome seria Yahia (João).

Distinto do texto de Lucas onde Zacarias ficou mudo logo após a revelação da gravidez de Isabel, só voltando a falar após o nascimento (Lc. 1.13, 18-20), o Alcorão diz que foram três noites ( 19.8-11). E anuncia o nome do filho Yahia (João) que seria fiel observador do Livro e que receberia sabedoria, que foi excelente filho, e esteve em paz que o acompanharia no dia da ressurreição (tradução de Hayek).

Na tradução de Challita (19.10) Zacarias pediu:” Senhor, concede-me um sinal”. E Deus: “Teu sinal é que ficarás mudo, embora sem defeito, durante três dias e três noites”.  Saiu do santuário e, dirigindo-se ao povo, fez-lhe compreender com gestos: “Glorificai Deus pela manhã e à noite”. 

Sobre Zacarias e sua esposa, não nomeada, e o filho, João, o Alcorão dedica doze  versos.  No relato do evangelista Lucas 1.5-25, bem mais extenso, temos nomeada a esposa de Zacarias, Isabel, detalhes do ofício sacerdotal, época, localização. e a visita de Maria à Isabel no sexto mês da gravides desta.  

Sobre Maria (Máriam) o Alcorão registra:

Em (19.16-17)  “E menciona a Maria, no Livro, a qual se separou de sua família, indo a um local ao leste. E colocou uma cortina para ocultar-se dela (da família), e lhe enviamos Nosso Espírito, que lhe apareceu personificado, como um homem perfeito. 

Tem-se a seguir a reação de Maria de resguardo à saudação do mensageiro divino:

 (19.18 -19): Disse-lhe ela: “Guardo-me de ti no Clemente, se é que temes a Allah”.   Ao que ele respondeu: “Eu sou Mensageiro do teu Senhor. Vim fazer-te dom de um filho santificado” (Challita) “para agraciar-te com um filho imaculado” (Hayek).

Maria pergunta como poderia ter um filho se nenhum homem a tocou e jamais deixou de ser casta (19.20) e o anjo responde que o Senhor disse E que isso seria um sinal para os homens e prova de misericórdia.

Os versos seguintes, que não tem paralelo nos textos do N.T. e reportam uma intensa crise que acometeu a Maria. Ela estaria sob suspeita e poderia sofrer pesadas acusações sobre sua reputação no contexto da comunidade:

(19.22,23) “ E quando concebeu, retirou-se, com seu rebento, para um lugar afastado. As dores do parto a constrangeram a refugiar-se debaixo de uma tamareira. Disse: “Pudesse ter morrido antes disto, ficando completamente esquecida”.

(19.24-26) Foi confortada por uma voz que lhe disse para não se afligisse pois “O Senhor fez brotar um riacho a seus pés e a tamareira seria uma fonte de alimentos” E foi orientada a não responder a nenhuma pessoa naquele dia – como voto de jejum de palavras.

(19.27-28) A seguir Maria regressa a seu povo. Disseram-lhe:” Maria, cometeste um ato condenável. Ó irmã de Arão, não era teu pai um homem mau, nem era tua mãe uma libertina” (trad. Challita).  

Na trad. Hayek: Regressou ao seu povo levando-o ( o filho) nos braços. E lhe disseram: “Ó Maria, eis que trouxeste algo extraordinário! Ó irmã de Aarão, teu pai jamais foi um homem do mal, nem tua mãe uma (mulher) sem castidade!

(10.29) Seus acusadores aguardavam alguma resposta. Ela se resguarda e simplesmente aponta o Filho para ser interrogado. Ele terá a resposta! 

 Retrucaram: “Como falaremos com um bebê no berço? ”

(19.30-34) Mas a criança falou: “Eu sou, na verdade, um servo de Deus ( ou de Allah). Deu-me o Livro e designou-me Profeta. E tornou-me abençoado onde quer que me encontre, e recomendou-me a prece e o tributo aos pobres (zakat) enquanto eu viver E me fez gentil para com minha mãe, não permitindo que eu seja arrogante nem rebelde.

A  paz está comigo, desde o dia em que nasci; estará comigo no dia em que eu morrer, bem como no dia em que eu for ressuscitado.

Este é Jesus, filho de Maria; é a pura verdade, da qual duvidam.  

E em continuidade o alerta:

(19.35) “É inadmissível que Allah tenha tido um filho. Glorificado seja! Quando decide uma coisa, basta-lhe dizer: Seja!, e é.

E Allah é meu Senhor e vosso. Adorai-o pois! Esta é a senda reta!”.

Neste ponto se renova a ênfase teológica islâmica que não admite a divindade ou filiação divina de Jesus.

Na literatura corânica encontra-se dados que não constam do Novo Testamento, como:

“Com o beneplácito de Allah, Jesus apresentou uma série de sinais ao seu povo e disse: “Eis que plasmarei do barro a figura de um pássaro, na qual assoprarei, e a figura se transformará em pássaro; curarei o cego de nascença e o leproso; ressuscitarei os mortos, pela vontade de Allah, e vos revelarei o que consumis e entesourais em vossas casas…”  

(https://super.abril.com.br/cultura/como-os-personagens-da-biblia-aparecem-no-corao).

No texto corânico não há recenseamento, rei, manjedoura, pastores e magos, tampouco de animais nem manifestação celestial de anjos cantando. E, sobretudo, chama atenção a ausência do esposo que a acompanhou na história bíblica, José. Dele não há nenhum registro. Fica um vazio narrativo neste ponto.

      Fonte: https://super.abril.com.br/wp-content/uploads/2018/09/maria-e-jesus1.png?&w=1024&crop=1

E há uma severa nota crítica: Em (5.17) “São blasfemos aqueles que dizem: Allah é o Messias, filho de Maria. Dize-lhes: Quem possuiria o mínimo poder para impedir que Allah, assim querendo, aniquilasse o Messias, filho de Maria, sua mãe e todos os que estão na terra? Só a Allah pertence o Reino dos céus e da terra, e tudo quanto há entre ambos. Ele cria o que lhe apraz, porque é Onipotente”.

Em (5:75), “O Messias, filho de Maria, não é mais do que um mensageiro, do nível dos mensageiros que o precederam; e sua mãe era sinceríssima. Ambos se sustentavam de alimentos terrenos como todos. Observa como elucidamos os versículos e observa como se desviam”.

Em (18,4)  “E para admoestar  aqueles que dizem: Allah teve um filho”.

Assim, segundo o Alcorão, Deus não gerou nenhum filho. Portanto, não aceitam Jesus como Filho de Deus nem como Deus, e sim como Profeta 

Os próprios muçulmanos registram enfaticamente as diferenças de visão que tem sobre os personagens bíblicos em relação a judeus e aos cristãos, pecado, salvação, a Trindade e escatologia. Por exemplo na 5a surata, “São blasfemos aqueles que dizem: ”Allah é um da Trindade! porquanto não existe divindade alguma além do Allah Único. Se não desistirem de tudo quanto afirmam, um doloroso castigo açoitar os incrédulos entre eles”.

Uma explicitação das contradições e incompatibilidades entre a revelação bíblica e a alcorânica, sob a ótica islâmica, está bem resumida no texto de Sami Isbelle.

https://extra.globo.com/noticias/religiao-e-fe/sami-isbelle/a-visao-islamica-acerca-de-jesus-363857.html  captado em 19/12/2023

Num comparativo com a Bíblia, livro com milhares de famílias nomeadas, onde as mulheres aparecem às centenas, destaque-se que em todo o Alcorão nenhuma outra mulher é mencionada. Exclusivamente Maria.

E dezenas de vezes, sempre bem citada como pessoa muito digna. Uma distinção ímpar e honrosa.  

E Eva, é nomeada? Adão sempre é referido associado à sua mulher, sua esposa, como em  (7.19) 

Na tradução de Chalita, não encontrada na maioria dos tradutores, Eva é mencionada no episódio da tentação: 

(20. 121-122) “Então, Adão e Eva comeram da árvore e deram-se conta das partes vergonhosas de sua nudez, e puseram-se a cobri-las com folhas do Paraíso. E Adão desobedeceu a seu Senhor e errou. Depois, Deus aceitou-lhe o arrependimento e o guiou”(20. 121-122).

Se Eva foi originariamente nomeada ou apenas referida como esposa, questão para os especialistas do texto, conjuga bem com a história de Maria. Eva carrega, no imaginário popular,  uma culpa arquetípica, como causadora da queda humana. Esquecem seus acusadores que Adão poderia tê-la advertido e ambos resistirem à manipulação sofística satânica. O texto bíblico (Gn.3) dá respaldo à responsabilidade primeira de Adão ao interpelá-lo sobre o acontecido no Jardim. Só depois perguntou a Eva.  

Se uma mulher foi co-autora da queda, de sua semente nasceria outra mulher, Maria, que geraria um filho que esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3.14-15). Assim temos o resgate da humanidade e o resgate do feminino. 

Referências: 

1- https://super.abril.com.br/cultura/como-os-personagens-da-biblia-aparecem-no-corao

2-  https://www.historiadomundo.com.br/arabe/alcorao.htm

3-chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://champagnat.org//shared/bau/Ano_Mariano_Subsidio_12.pdf 

4-https://iqaraislam.com/a-historia-de-ado-e-eva-no-alcorao

Ageu H.Lisboa, Campinas, SP, 20/12/2023 d.C. – 1443-1445 H.

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