Texto de Jorge Nahas, médico mineiro. Trata de camadas antropológicas, políticas, culturais e religiosas da hanseníase, antes denominada de lepra. A mais temida doença na Bíblia- associada a tabus, violência social e exclusão religiosa.

Jesus enfrentou de frente esse tabu desumanizador, resgatando suas vítimas da condenação social e curando-os, especialmente pelo afeto de suas palavras e toque.

Infelizmente, a hanseníase, continuou a ser significante de maldição, deformidade e ameaça por séculos em todo o mundo, chegando até nossos dias. Aí entra a ciência, com sua paciente investigação etiológica e epidemiológica operando “milagres”; hoje dispomos de tratamentos eficazes e sabemos como impedir sua ocorrência.

Que religiosos reconheçam e agradeçam a Deus os milagres mediados pela ciência.

O texto nos apresenta Ermano Stradelli que revelou mitos e costumes de indígenas brasileiros e desumanos tratamentos dos “civilizados” e de missionários em regiões da Amazônia.

O conde, a lepra e o nheengatu
Jorge Nahas
No último domingo do mês de janeiro comemoramos o Dia Mundial Contra a Hanseníase e, no Brasil, o Dia Nacional de Combate e Prevenção da Hanseníase. O lema do Dia Mundial, “Unidos pela Dignidade” evoca o histórico de estigmatização, preconceitos, violência e isolamento forçado imposto até um passado não muito distante aos portadores da enfermidade. No Brasil, são inumeráveis as vítimas e os atos resistência heróica ao processo de confinamento forçado. É hora de recordá-los, na pessoa e na obra extraordinárias de Ermano Stradelli.
Ermano Stradelli nasceu em dezembro de 1852, no castelo senhorial de Borgotaro, na Lombardia, primogênito do Conde Francesco Stradelli. Este rebento de uma família nobre, contraria a família e não termina os estudos jurídicos , irremediavelmente atraído pela exploração de um planeta em larga medida desconhecido. Estuda fotografia, topografia, farmácia, homeopatia. Decide-se pelo Brasil e pela Amazônia, obtém o apoio da Real Sociedade Geográfica Italiana, e em junho de 1879, com 27 anos vigorosos, desembarca no Pará. Segue para Manaus, ainda cercada pelas tabas dos Manaós, cidade que o fascina. Logo inicia suas explorações, subindo o Amazonas, o Purus, o Juruá. Perde suas anotações e farmácia em um naufrágio , contrai paludismo, acompanha da Comissão Brasileira dos Limites com a Venezuela. Visita o Rio Uapés, afluente do Negro, descreve os mitos e costumes dos indígenas, revolta-se com o tratamento dos “civilizados” e dos missionários , conhece e estuda o mito do “Jurupari”, faz comunicações à Real Sociedade Italiana. Volta à Itália, termina os estudos jurídicos e retorna à Amazônia, desta vez pela Venezuela, tentando encontrar as nascentes do Orenoco e logo volta a Manaus. Stradelli naturaliza-se brasileiro, obtém a carta de advogado, e em 1895 é nomeado promotor público, exercendo primeiro em Tefé e depois em Lábrea. Em 1923, é demitido do serviço público.
Stradelli contraíra hanseníase, provavelmente em Lábrea. Tenta voltar para a Itália, mas os navios de passageiros recusam-se a transportá-lo. É confinado em um leprosário improvisado em Urimizal, aonde viveu até falecer em 1926. Detalhes sobre sua vida e seus últimos anos podem ser encontrados no livro de Câmara Cascudo, ”Em Memória de Stradelli”.
Cem anos após a sua demissão e confinamento, em julho de 2023, as ministras do STF Carmem Lúcia e Rosa Weber, então sua presidente, deslocaram-se até São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, na fronteira com a Colômbia e Venezuela. Foram lançar o primeiro exemplar da Constituição do Brasil na língua geral amazônica, o nheengatu, traduzido por uma equipe de intérpretes indígenas, todos falantes da língua geral, proibida em 1757 pelo rei de Portugal.
O ato , de enorme valor simbólico, lançou luz sobre “Vocabulário Português-Nheengatu/ Nheengatu Português”, a obra maior de Stradelli, o primeiro e mais completo dicionário da língua geral, modestamente chamado de “Vocabulário”, recentemente editado pela Ateliê, em primorosa edição.
A morféia ou lepra provoca desde a antiguidade atitudes de repulsa e hostilidade para com aqueles atingidos pelo infortúnio da doença, obrigados a anunciar a sua presença por matracas ruidosas, expulsos violentamente dos espaços públicos, forçados ao isolamento , sem tratamento algum, mesmo paliativo. Com a descoberta por Hansen do bacilo causador, a doença deixou de ser um castigo divino para ser reconhecida como infecciosa mas mesmo assim, o medo e o preconceito calaram a ciência. O Brasil adotou o modelo da segregação compulsória na década de 1930, obrigando aqueles diagnosticados com a doença ao isolamento em colônias.
Aos olhos de uma sociedade que garante direitos, fica claro que a política de segregação compulsória prosperou não por uma imposição “técnica”, baseada nos dados científicos disponíveis sobre sua transmissão, mas porque não havia obstáculos institucionais a ela. O preconceito se impôs à ciência médica.
A internação compulsória só foi formalmente abolida em 1976, mas persistiu em alguns estados até 1980. No ano passado, 20 600 casos novos de hanseníase foram diagnosticados, todos tratados ambulatorialmente.

Deixe um comentário