Profanação, destruição física e simbólica. Ataque às sedes dos três poderes. 08 janeiro 2023.
Tarde de domingo, dia de sol, praia e encontros de família. De repente imagens inéditas de destruição aparecem nas televisões. Seriam cenas de um filme apocalíptico? Logo o mundo inteiro ficaria conectado ao fato acompanhando o assalto, sem oposição, às sedes dos três poderes da República por imenso grupo bem adestrado e uniformizado, vindos da frente do Quartel General do Exército! – O que isto pode indicar? – Cantos, gritos de guerra, bandeiras usadas como roupas e estandartes, multidão crendo cumprir uma missão salvadora.
Lendo a enxurrada de convocações prévias nas redes sociais para esta ação em Brasília, fica claro que uma dupla motivação, política e religiosa, fora plantada; então, milhares se juntaram ao chamado de um dever religioso e cívico. A noção e preparo para uma Guerra Santa contra o mal foi profundamente inoculada em milhões de pessoas nos últimos anos. Como alcançou tamanha força e traduziu-se na adesão a uma facção política entre outras?
Leitores da Bíblia são especialmente sensíveis ao simbolismo sagrado e buscam construir suas vidas de acordo com referências ao texto. Nas Escrituras recebem o conforto das graças divinas para conviver e superar os males inerentes à existência. Mais ainda, tem-se a força da esperança do porvir. Particularmente os cristãos aguardam o retorno de Cristo e oram para que venha o seu reino. Reino que não se confunde com os reinos deste mundo, nas palavras do próprio Jesus. Reino de justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Jo 18.36, Rm 14.17).
Esta fé foi domesticada por parcela influente de pastores e padres que entregaram às suas comunidades uma visão de mundo e projeto de poder de um antigo militar insuflador de atritos nas FFAA e deputado defensor de torturas. Sempre coerente em sua rigidez, encontrou sintonia fina com líderes religiosos que lhe deram acesso privilegiado a uma malha de milhares de templos com milhões de pessoas.
Bolsonaro não veio do nada. Como militar soube explorar bem um minado terreno político. Ocorrera o mensalão e a operação LavaJato. Brasileiros exaustos e enojados que estão com o mundo político. Ele surge, então, como o capitão da moralidade e justiceiro. Citando frequentemente “a verdade vos libertará”, seduziu milhões de crentes sendo tido como o enviado de Deus para a salvação do Brasil. Em campanha política foi esfaqueado, fato que o tornou mais conhecido e desfrutou de fortíssima ligação emocional com milhões de brasileiros. Seu sobrenome Messias, facilitou ainda mais uma associação com o sacrificado redentor Jesus. No imaginário da maioria evangélica havia um predestinado ao poder: Jair Messias Bolsonaro.
Veio a eleição. Votos contados nas nunca incontestadas urnas eletrônicas, sagrou-se vencedor. A oposição acatou civilizadamente, sem nenhuma contestação, o resultado. Eleito presidente, euforia no mercado financeiro, manteve permanente mobilização de apoiadores nas redes sociais. Poderia elevar-se como estadista de destaque se tivesse inteligência científica, diplomática e humanitude. Preferiu investir em armas, esvaziar a educação, deixar a Amazônia livre para destruição, xingar e menosprezar líderes de quase todos os países. Nos anos mais mortais de nossa história, ridicularizava os agonizantes da COVID enquanto se exibia narcisicamente em motociatas. Início de 2022 guerra da Rússia contra a Ucrânia pronta para explodir, lá foi o Jair abraçar e apoiar o amigo Putin. Que pastor se escandalizou com isso? Uma falsa neutralidade foi pregada.
Quatro anos se passaram e, aproximando-se de novas eleições, inicia discurso contra o sistema eleitoral mais testado e avalizado por entidades dos três poderes, órgãos de inteligência, especialistas dos partidos políticos e de universidades. Orientado pelo ideólogo da extrema direita americana, Bannon, mentor do Trump, articulou o argumento que poderia utilizar na eventualidade de perder a eleição. Criar suspeita contra a urna eletrônica. No primeiro turno conseguiu eleger a maior bancada de deputados e senadores. “Ótima, a urna é boa!” disseram seus aliados eleitos, menos o Bolsonaro. Astuto, guardou silêncio e não quis se arriscar a aplaudir pois haveria o segundo turno para governos estaduais e a presidência. O Lula sempre aparecia com vantagens em pesquisas. Tratou de desqualificá-las e dizia que ganharia de qualquer jeito!!
Aconteceu o segundo turno. Perde na eleição mais vigiada da história da república, com as mesmas urnas do primeiro turno. Não poderia ser verdade, choraram em prantos e súplicas muitos de seus seguidores. Desencanto e lamento em igrejas. E as profecias e revelações sobre a vitória? Não se conformando, o mito caiu em depressão profunda, fechou-se no palácio, deixou de trabalhar pelo país. Transparece, então, no seu distanciamento do público e na agitação de seus seguidores que algo estava sendo acionado, um plano B. Pois teriam a vitória garantida, segundo os oráculos de pastores, sonhos e profecias reveladas em cultos evangélicos.
Neste contexto, agora se sabe, deixou seguir o planejado golpe para reverter a perda. Uma rede de estrategistas e executores cuidavam do processo. Saiu do Brasil para o conforto junto ao ídolo e mentor Donald Trump. Seus adeptos se aglutinaram e passaram a morar em acampamentos frente a quartéis. Uma logística cara e sofisticada deu suporte com alimentação, banheiros, barracas. E se retroalimentavam nas redes sociais, Celulares a grande arma nesta trama. Transmitiam expressões de profundo enlutamento bem como iradas ameaças ao presidente eleito. Houve um crescendo na articulação da resistência.
Psicólogos e psiquiatras descrevem o mecanismo de negação quando a realidade é doída, inaceitável. Comum em ocasiões de perda de ente querido. Freud estuda este fenômeno em Luto e Melancolia. Nega-se a realidade da perda e adota-se uma realidade paralela onde a imaginação é fértil. No caso do luto coletivo dos bolsonaristas crenças fantásticas produziram ações inusitadas. Até um rito de comunicação com seres extraterrestres pedindo ajuda aconteceu numa praça em Porto Alegre, RS. Celulares com lanternas acesas e dirigidas para o céu à noite e clamores a E.T.s Enquanto isto, acampados especializaram-se em decifrar mensagens de instruções do aguardado Messias.
Chegou o Dia. A senha: Hoje ou Nunca!
Com esse imaginário religioso e por meio do financiamento de empresários, os santos guerreiros partiram para a batalha contra o mal. O que está documentado revela uma furiosa, festeira e sádica destruição nos edifícios sedes dos Três Poderes. Realizou-se como uma orgia litúrgica. Cantos religiosos e bíblias levantadas de muitos misturaram-se a uivos e gritos de guerra de outros. Alegria exaltada, um autêntico êxtase místico.
Os atos dos apóstolos do ódio replicaram a barbárie perpetrada pelo ISIS (Estado Islâmico) no Oriente Médio — defensores da purificação pela destruição. Um mantra religioso lá e cá foi exaustivamente recitado para apoiar o ideal de um estado teocrático e embalar a ação de conquista do poder. A destruição nas sedes dos três poderes da república atingiu mobiliários, computadores e documentos, profanação de obras de arte e símbolos religiosos e furtos. Cenas que lembram a fúria terrorífica de períodos caóticos sofridos por outros países quando a irracionalidade da horda impera. Cumpriu-se à letra o observado de que a violência tem sido a parteira da história. E agora?
O efeito imediato? A alma da nação foi atingida profundamente. Uma profunda ferida simbólica se fez. Membros de igrejas sofrendo crise de identidade e buscando acolhimento onde sejam respeitados e não manipulados. Contudo é ingênuo achar que os pastores aliados do perdedor rebelde o abandonarão. Talvez abrandem discursos belicosos, mas a ideologia da guerra espiritual e do nacionalismo cristão criou raízes profundas demais. Um cisma ocorreu na igreja brasileira. Importa chamar pastores de volta para a Igreja e junto a Cristo apenas. Não em palanques, partidos, e palácios, mitos e poderosos. Junto com os necessitados e em missões de misericórdia.
Após a destruição, vê-se a análise dos escombros, trabalhos de contenção e prevenção, enquadramento legal dos responsáveis. Políticos, militares, empresários, influencers, insufladores, convocadores, apoiadores e abençoadores dos discursos de ódio e da incitação à rebelião estão sendo identificados e serão responsabilizados.
O Estado laico e democrático brasileiro tem excelentes dispositivos de garantia de direitos à liberdade de expressão pacífica de ideias e do exercício das espiritualidades. Bom que não apenas “quatro linhas” da constituição, mas muitas centenas de páginas que abrigam 250 artigos servirão de base para correção judicial das ações golpistas.
Seguir em frente com esperança, vigilância, amorosidade e justiça!
Ageu Heringer Lisboa, psicólogo.

Estamos vivendo dias difíceis, de muita idolatria,
a igreja se esqueceu que Jesus é suficiente.
Exatamente, Carmem. Jesus – sem aparelhamentos ideológicos. Jesus sempre humanizador, que fica com os pequeninos (Mt.25)